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terça-feira, 12 de julho de 2016

Como se vestiam os medievais? – 1
O triunfo da cor

Parada histórico em Asti, Itália. O prefeito da cidade
Parada histórica em Asti, Itália. O prefeito da cidade
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs



O que surpreende nos trajes da Idade Média é a cor. O mundo medieval é colorido, e o espetáculo da rua devia ser então um encantamento para os olhos.

Perante um cenário de fachadas pintadas e de tabuletas rutilantes, o movimento desses homens e mulheres vestidos de tons vivos, contrastando com a túnica negra dos clérigos, o burel castanho dos irmãos mendigantes e a brancura extrema de uma coifa.

Não é possível no mundo moderno imaginar uma tal festa de cores, a não ser nos conhecidos desfiles na Inglaterra por ocasião do casamento de um príncipe e a coroação de um rei.

Ou então em certas cerimônias eclesiásticas, como as que se desenrolam no Vaticano.

Não se trata apenas de indumentárias de luxo, pois os simples camponeses vestem-se com cores claras, vermelhas, ocres, azuis.

A Idade Média parece ter tido horror dos tons sombrios, e tudo o que nos legou — frescos, miniaturas, tapeçarias, vitrais — testemunha essa riqueza de colorido tão característica da época.

Não se deve contudo exagerar o pitoresco ou a excentricidade do traje medieval.

Alguns pormenores, que associamos inevitavelmente aos quadros do tempo, só excepcionalmente fizeram parte da indumentária.

Os sapatos de ponta revirada, por exemplo, estiveram na moda durante meio século, não mais, no decorrer do século XV, que assistiu a não poucos exageros vestimentares.

Cortejo Histórico em Feltre, Itália. Um casal jovem
Cortejo Histórico em Feltre, Itália. Um casal jovem
Charles d'Orléans critica os “gorgias” — jovens elegantes que usam mangas recortadas, com fenda lateral, que exibem dobras impressionantes.

Do mesmo modo, a coifa longa e pontiaguda, irresistivelmente evocada pela palavra “castelã”, foi muito menos usada do que a coifa quadrada ou arredondada, que enquadra o rosto e é muitas vezes acompanhada de uma fita sob o queixo, moda corrente no século XIV.

De modo geral, as mulheres da Idade Média usam roupas que seguem a linha do corpo, com um busto muito justo e amplas saias de curvas graciosas.

O corpete abre-se frequentemente sobre a chainse ou camisa de tecido, e as mangas são por vezes duplas, detendo-se as primeiras (as da sobreveste ou traje de cima) nos cotovelos, e as de baixo, de tecido mais ligeiro, indo até aos pulsos.

O pescoço é sempre bem destacado, enquanto as saias arrastam pelo chão, presas por um cinto onde por vezes sobressai uma fivela de joalheria.

O traje masculino quase não se distingue do feminino, pelo menos nos primeiros séculos da Idade Média, mas é mais curto. O calção deixa ver as meias, e por vezes as bragas ou calções.

No decurso do século XII, sob a influência das cruzadas, adotam-se roupas compridas e flutuantes, moda vivamente censurada pela Igreja como sendo efeminada.

Os camponeses usam uma espécie de romeira com capuz, e os burgueses cobrem a cabeça com um carapuço de feltro ou de tecido pregueado.

São muito apreciadas as peles, desde o arminho reservado aos reis e príncipes de sangue, a marta ou o esquilo, até às simples raposas e carneiros, dos quais os aldeões confeccionam sapatos, gorros e casacos compridos.

No século XV, grandes senhores como o duque de Berry gastarão fortunas para comprar peles preciosas, e é também nessa época que o traje se complica, os calções se tornam estreitos e justos, a vasquinha exageradamente curta e franzida na cintura, e os seus ombros acolchoados.

A roupa de baixo existe desde o início da Idade Média, e o exame das miniaturas mostra que é usada tanto pelos camponeses como pelos burgueses.

Havia por toda parte, em França, cânhamos cuja fibra era fiada e tecida em casa, fornecendo um belo tecido resistente. Em contrapartida a roupa de noite não existe, e o seu uso só muito tarde é introduzido.

Cortejo histórico em Asti, Itália. Um casal.
Cortejo histórico em Asti, Itália. Um casal.
Circula em toda a França uma grande variedade de tecidos para a indumentária, através das grandes feiras.

Vendem-se nas cidades mediterrânicas todas as especialidades da indústria têxtil das Flandres e do norte da França: tecidos de Châlons, estamenha forte de Arras, lençóis de lã de Douai, de Cambrai, de Saint-Quentin, de Metz, panos vermelhos de Ypres, estanforts da Inglaterra, tecidos finos de Reims, feltros e capas de Provins, sem contar especialidades locais como a brunette de Narbona e os panos cinzentos e verdes de Avignon.

O comércio das cidades do litoral, Gênova, Pisa, Marselha, Veneza, permitia a importação dos produtos exóticos da África do Norte, e mesmo da Índia e da Arábia.

Alguns registros de mercadores que freqüentavam a feira da Champagne são tão sugestivos como uma página das Mil e uma noites: panos de ouro de Damasco, sedas e veludos de Acra, véus bordados da Índia, algodões da Armênia, peles da Tartária, couros e cordovões de Tunes ou de Bougie, peles trabalhadas de Oran e de Tlemcen.

A seda e o veludo foram durante muito tempo apanágio da nobreza, sendo os nobres os únicos suficientemente ricos para poderem adquiri-los.

Tudo isto era objeto dos presentes dos príncipes. Em ocasiões de grande regozijo eles distribuem gostosamente ao seu séquito, independentemente do grau, trajes mais ou menos suntuosos.

Mas o luxo excessivo não foi característico da realeza capetiana. A corte só se tornou magnífica sob os Valois, e sobretudo com os príncipes apanagiados — duques de Berry, Borgonha e Anjou.



Continua no próximo post: Como se vestiam os medievais? – 2

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



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terça-feira, 28 de junho de 2016

Como comiam os medievais

Refeição num lar nobre
Refeição num lar nobre
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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A maior parte dos pratos não são postos em cima da mesa. As carnes põem-se num pequeno trinchante, e o mesmo se passa com as bebidas.

O escudeiro trinchador, em geral um jovem gentilhomem, tem a função de cortar para cada convidado porções de carne. Nos romances de cavalaria — como Jean de Dammartin et Blonde d'Oxford, obra de Beaumanoir — o cavaleiro servidor da dama cumpre esse papel.

Depõem-se os pedaços diretamente sobre o prato ou sobre fatias de um pão especial, conhecido como pão de trinchar, mais compacto que o pão corrente.

Este costume subsistiu em algumas regiões de Inglaterra, onde os pratos de carne não aparecem à mesa.

Com relação às bebidas, os jarros que as contêm estão sobre um aparador, e o copeiro enche jarros e taças uns após outros, à vontade dos convivas.

Todas as cenas de banquete representam assim escudeiros e servidores indo e vindo durante a refeição, enquanto as damas permanecem sentadas, tal como os senhores de alta posição e os hóspedes familiares da casa.

Galgos de formas esguias ou pequenos caniches volteiam à procura de um pedaço para comer.

Banquete de casamento
Banquete de casamento
Os festins são muitas vezes separados por entremezes, no decurso dos quais os jograis recitam poemas ou executam números de acrobacia.

Por vezes é mesmo toda uma pantomima ou uma peça de teatro que se desenrola aos olhos dos convivas.

Põe-se cuidado extremo na apresentação dos pratos: pavões e faisões são postos de pé, revestidos com as suas penas; nas geleias, traça-se toda sorte de cenários.

O serviço compreende em primeiro lugar as sopas, de grande variedade.

Há desde os caldos complicados, muitas vezes temperados com ovos batidos, pedaços de pão torrado e condimentos inesperados como o verjus (licor de uva), até às papas de farinha, de sêmola ou de cevada, que se comem ainda nos nossos campos, e que formavam o fundo da alimentação dos camponeses.

Os franceses eram reputados como grandes comedores de sopas, tal como hoje em dia. Eram igualmente famosos pela excelência dos seus patês e das suas tartes.

A corporação dos pasteleiros de Paris alcançou justa reputação pelos patês de montaria ou de aves, que se vendiam quentinhos na rua, tartes de legumes ou de compotas, realçadas com ervas aromáticas, tomilho, rosmaninho, louro.

Nos festins dados pelos príncipes por ocasião de qualquer recepção, sobretudo a partir do século XVI, certos patês monstruosos encerram cabritos-monteses inteiros, sem prejuízo dos capões, pombos e coelhos que o temperam, entremeados de gordura de porco, temperados com cravinho e açafrão.

Eram também muito apreciadas as carnes grelhadas e assadas.

Dos molhos, cada cozinheiro possuía uma especialidade, sendo o mais apreciado o de alho, vendido já preparado para uso das donas de casa.

Cremes e pratos doces terminam a refeição. Alguns bolos como as filhoses, bolos de amêndoa e o maçapão, contam-se entre aqueles que ainda hoje apreciamos.

Como presente, gostava-se de oferecer compotas de frutas, sobretudo a muito apreciada marmelada e bombons. Eram as guloseimas mais correntes, juntamente com as compotas e os xaropes.

Uma refeição num ambiente popular.
Uma refeição num ambiente popular.
Tudo isto está evidentemente a léguas das “ervas e raízes”.

Varia com o grau de fortuna a alimentação e o refinamento que nela se põe, é claro, mas está fora de dúvida que não se venderiam nas ruas coscorões, patês e produtos exóticos como os figos de Malta, se não houvesse ninguém que os comprasse, ou se só estivessem ao alcance dos ricos burgueses.

O abastecimento destes se fazia em outra escala, e eles tinham em casa os seus cozinheiros.

Nos romances de ofício veem-se jovens aprendizes comprar regularmente pequenos patês quando vão de manhã buscar água na fonte para o consumo da casa, o que quer dizer que o seu preço não era inabordável para a sua bolsa.

E a vida no campo, embora talvez menos variada, não devia ter menos largueza que na cidade, muito pelo contrário, pois a cultura dos campos e a criação do gado davam aos camponeses facilidades que o citadino não tinha.

Quando se quer criar uma cidade, é necessário prometer isenções e privilégios para atrair habitantes.

Isso não seria necessário se o camponês fosse miserável ou desfavorecido em relação ao citadino, como nos nossos dias.

Há todas as razões para crer que da Idade Média datam as sãs tradições gastronômicas que estabeleceram tão solidamente em todo o mundo a reputação da cozinha francesa.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



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terça-feira, 14 de junho de 2016

As refeições medievais: imensa variedade
aproveitando os recursos regionais

Peregrinos rumo a Compostela sentados na mesa de uma taverna da estrada
Peregrinos rumo a Compostela sentados na mesa de uma taverna da estrada
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O regime geral das refeições variava muito com as regiões, estando muito mais dependente dos recursos locais do que hoje em dia.

É certo que as trocas eram numerosas, mais extensas do que se poderia acreditar, uma vez que os figos de Malta e a uva da Armênia eram apregoados em Paris.

Os comerciantes italianos e provençais traziam para as grandes feiras da Champagne e da Flandres os produtos exóticos.

Num plano mais restrito, os mercados atraíam negociantes de quase todas as regiões de França.

Mas essas trocas eram naturalmente menos generalizadas do que nos nossos dias, e se excetuarmos o movimento comercial criado em torno do castelo senhorial, vivia-se no campo à base das produções locais.

Não eram utilizados processos de cultura artificiais para fazer avançar as estações.

Por outro lado, os dias de jejum e abstinência eram muito numerosos, e a alimentação mudava de época para época muito mais do que hoje em dia.

Durante toda a Quaresma, compunha-se unicamente de legumes, peixes e caças de água, temperados com azeite.

O mesmo acontecia nas vigílias ou nas vésperas de dias santos, significando uma quarentena de dias por ano.

Deve-se observar que essas prescrições eclesiásticas estavam perfeitamente de acordo com os preceitos da higiene: o jejum da primavera e o das mudanças de estação corresponde a uma necessidade de saúde, enquanto a grande época das festas, que se traduzem inevitavelmente em comezainas, se situa nos meses mais frios do inverno, quando o organismo sente necessidade de uma alimentação rica.

Em qualquer dos casos, com base nos tratados de cozinhas guardados nas nossas bibliotecas e em obras tais como esse precioso Ménagier de Paris, conclui-se que a mesa era na Idade Média muito cuidada, para não dizer muito refinada.

Dá-se grande importância à apresentação dos pratos e à ordenação geral das refeições. Nas residências senhoriais, os convivas sentam-se em mesas compridas, apoiadas em cavaletes e recobertas de toalhas brancas.

O chão está muitas vezes, nos dias de festa, juncado de flores e de folhagens recém-apanhadas.

Serviço doméstico da mesa no tempo do rei João da Inglaterra, 1199-1216
Serviço doméstico da mesa no tempo do rei João da Inglaterra (1199-1216)
As mesas são dispostas em quadrado ao longo das paredes, não existindo portanto o face-a-face, de modo que o pessoal doméstico possa ir e vir e pôr diante de cada conviva aquilo de que este necessitar.

Os convidados são sempre numerosos, pois é hábito de todos os barões ter mesa aberta.

Robert de Blois indigna-se com o pensamento de que alguns senhores mandam fechar as portas das salas onde comem, em vez de as manterem abertas a quem chega.

A hospitalidade é então um dever sagrado, estende-se tanto à populaça como aos iguais.

Por outro lado, a corte do senhor compreende todos os escudeiros ligados ao seu serviço, os filhos dos seus vassalos, grande parte dos seus parentes.

De tal modo que, ao lado da grande mesa onde o suserano se senta em lugar de honra há toda uma multidão de comensais, mais ou menos bem colocados segundo os seus títulos de precedência.

Este costume explica por que os cavaleiros do rei Artur, entre os quais reina uma perfeita igualdade, se sentam em redor de uma mesa redonda ou desenhando uma espécie de ferradura, de modo que todos os lugares sejam igualmente honrosos, sem no entanto se tornar impossível servir os convivas.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)





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terça-feira, 31 de maio de 2016

Dois fatores geradores da vida urbana:
o comércio e as profissões em espírito de família

Enriquecimento geral pelo comércio e o artesanato. Castello dei Conti (Itália)
Enriquecimento geral pelo comércio e o artesanato.
Passeata histórica em Castello dei Conti (Itália)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Com o comércio, o elemento essencial da vida urbana é o ofício.

A forma como foi compreendido na Idade Média, como se regulou o seu exercício e as suas condições, mereceu reter particularmente a atenção da nossa época, que vê no sistema corporativo uma solução possível para o problema do trabalho.

Mas o único tipo de corporação realmente interessante é a corporação medieval, tomada no sentido lato de confraria ou associação de ofício, logo alterada sob pressão da burguesia.

Os séculos seguintes não conheceram dela senão deformações ou caricaturas.

Corporação: é a custo que empregamos este termo, do qual tanto se abusou, e que se prestou a inúmeras confusões a propósito das nossas antigas instituições.

Notemos em primeiro lugar que se trata de um vocábulo moderno, que só aparece no século XVIII. Até então só tinha sido questão de mestrias ou de confrarias (jurandes).

Feira medieval: comércio direto entre produtor e consumidor
Feira medieval: comércio direto entre produtor e consumidor
Estas, caracterizadas pelo monopólio de fabrico por um dado ofício numa cidade, foram bastante pouco numerosas durante o belo período da Idade Média.

Existiam em Paris, mas não no conjunto do reino, onde começaram a tornar-se o regime habitual — ainda com inúmeras exceções — apenas no fim do século XV.

A idade de ouro das corporações não foi a Idade Média, mas o século XVI.

Ora, a partir dessa época, sob o impulso da burguesia, elas começavam a ser de fato formadas pelos patrões, que fizeram da mestria uma espécie de privilégio hereditário.

Esta tendência se acentuou de tal forma, que nos séculos seguintes os mestres constituíam uma verdadeira casta, cujo acesso era difícil, senão impossível, para os operários pouco afortunados.

Estes não tiveram outro recurso senão formar por sua vez, para sua defesa, sociedades autônomas e mais ou menos secretas, as companheiragens.

Depois de ter sido, no espírito de determinados historiadores, o sinônimo de “tirania”, a corporação foi alvo de juízos menos severos e por vezes de elogios exagerados.

Os trabalhos de Hauser tiveram sobretudo por finalidade reagir contra esta última tendência e demonstrar que é preciso evitar ver nela um mundo “idílico”.

É bem certo que nenhum regime de trabalho pode ser qualificado de “idílico”, tanto a corporação como algum outro, a não ser talvez por comparação com a situação criada ao proletariado industrial do século XIX, ou com inovações modernas tais como o sistema Bedaud.

Não poderíamos definir melhor a corporação medieval do que vendo nela uma organização familiar aplicada ao ofício.

Entrar num emprego ou profissão era como entrar numa família
Entrar num emprego ou profissão era como entrar numa família
Ela é o agrupamento, num organismo único, de todos os elementos de um determinado ofício: patrões, operários e aprendizes estão reunidos, não sob uma autoridade dada, mas em virtude dessa solidariedade que nasce naturalmente do exercício de uma mesma indústria.

Como a família, ela é uma associação natural, não emana do Estado nem do rei.

Quando São Luís manda Étienne Boileau redigir o Livre des métiers (Livro dos ofícios), é apenas para colocar por escrito os usos já existentes, sobre os quais não intervém a sua autoridade.

O único papel do rei face à corporação, como de todas as instituições de direito privado, é controlar a aplicação leal dos costumes em vigor.

Como a família, como a universidade, a corporação medieval é um corpo livre, que não conhece outras leis senão as que ela própria forjou. 

É esta a sua característica essencial, que conservará até ao fim do século XV.
Loja medieval: o artesão vendia diretamente sua produção
Loja medieval: o artesão vendia diretamente sua produção

Todos os membros de um mesmo ofício fazem obrigatoriamente parte da corporação, mas nem todos, bem entendido, desempenham aí o mesmo papel.

A hierarquia vai dos aprendizes aos mestres-jurados, que formam o conselho superior do ofício.

Habitualmente distinguimos aí três graus:

̶  aprendiz,


̶ companheiro ou servente de ofício e


̶ mestre.

Mas isto não pertence ao período medieval, durante o qual, até por meados do século XIV, na maior parte dos ofícios se pode passar a mestre logo que terminada a aprendizagem.

Os serventes de ofício só se tornarão numerosos no século XVIII, quando uma oligarquia de artesãos ricos procura cada vez mais reservar-se o acesso à mestria, o que esboça a formação de um proletariado industrial.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


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