Outras formas de visualizar o blog:

terça-feira, 13 de junho de 2017

As relações trabalhistas na era feudal:
na base da fidelidade e da proteção

Cozinheiros, vitral da catedral de Chartres
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Pode-se dizer da sociedade atual que ela se fundamenta sobre o salariado. No plano econômico, as relações de homem para homem reduzem-se às relações do capital e do trabalho.

Executar um trabalho determinado, receber em troca uma certa soma, tal é o esquema das relações sociais.

O dinheiro é o nervo essencial delas, pois com raras exceções uma atividade determinada se transforma de início em numerário, antes de se transformar novamente em objeto necessário à vida.

Para compreender a Idade Média, é preciso se afigurar uma sociedade vivendo de modo totalmente diverso, em que a noção de trabalho assalariado, e em parte até mesmo a do dinheiro, são ausentes ou secundárias.

O fundamento das relações de homem a homem é a dupla noção de fidelidade e proteção. Assegura-se a alguém seu devotamento, e em troca espera-se dele segurança.

Não se contrata sua atividade, tendo em vista um trabalho determinado com remuneração fixa, mas sua pessoa, ou antes sua fidelidade. Em retribuição, se oferece subsistência e proteção, no pleno sentido da palavra. Tal é a essência do liame feudal.

Mestre de ofício vai ensinando os aprendizes
Durante toda a Idade Média, sem esquecer sua origem territorial, senhorial, esta nobreza teve uma conduta sobretudo militar.

É que, de fato, seu dever de proteção comportava de início uma função guerreira: defender seu domínio contra as invasões possíveis.

Apesar dos esforços em reduzir o direito de guerra privada — tais guerras foram mitigadas pela ação da Igreja, mediante a trégua de Deus e a quarentena — ele ainda subsistia, e a solidariedade familiar podia implicar a obrigação de vingar pelas armas as injúrias feitas a um dos seus.

Acrescenta-se ainda uma questão de ordem material. Detendo a principal, senão a única fonte de riqueza, que era a terra, apenas os senhores tinham a possibilidade de equipar um cavalo de guerra e de armar escudeiros e oficiais.

O serviço militar será pois inseparável do serviço de um feudo, e a fidelidade prestada pelo vassalo nobre supõe auxílio de suas armas, todas as vezes que for necessário. Este é o primeiro encargo da nobreza e um dos mais onerosos: a obrigação de defender o domínio e seus habitantes.

A espada diz: “É minha justiça e encargo guardar os clérigos da Santa Igreja e aqueles que produzem o alimento”.

Os mais antigos castelos, aqueles que foram construídos nas épocas de turbulência e invasões, trazem a marca visível dessa necessidade.

A aldeia e as habitações dos camponeses estão nos arredores da fortaleza, em cujo recinto toda a população irá se refugiar por ocasião de perigo, e onde ela encontrará auxílio e mantimentos em caso de sítio.

Cheverny, armaduraDas obrigações militares da nobreza decorre a maior parte dos seus costumes.

O direito de primogenitura vem, em parte, da necessidade de confiar ao mais forte a herança que ele deve garantir, muitas vezes pela espada.

A lei sálica se explica também por isso, pois só um homem pode assegurar a defesa de um castelo (donjon).

Assim pois, quando uma mulher se torna a única herdeira de um feudo, o suserano tem o dever de casá-la.

Eis por que a mulher apenas sucederá após seus filhos mais jovens, e estes após o primogênito.

Estes só receberão apanágios, e ainda assim muitos desastres ocorridos pelo fim da Idade Média tiveram por origem os demasiados apanágios deixados a seus filhos por João, o Bom. O poder foi para eles uma tentação perpétua, e para todos uma fonte de desordem durante a minoridade de Carlos VI.

Os nobres têm igualmente o dever de fazer justiça a seus vassalos de todas as condições e de administrar o feudo.

Trata-se precisamente do exercício de um dever, e não de um direito, implicando em responsabilidades bastante pesadas, pois cada senhor deve dar contas de seu domínio, não somente à sua linhagem, mas também a seu suserano.

Etienne de Fougères descreve a vida do senhor de um grande domínio como cheia de preocupações e de cansaços:

Cá e lá vai, muitas vezes volta,
Não repousa nem descansa.
Perto dos castelos ou longe deles,
Às vezes alegre, quase sempre triste.
Cá e lá vai, não dorme,
Para que seu caminho não se interrompa.

Longe de ser ilimitado, como geralmente se acreditou, seu poder é bem menor do que o de um industrial ou qualquer proprietário de nossos dias, porque ele jamais tinha a propriedade absoluta de seu domínio.

Dependia sempre de um suserano, e os suseranos, mesmo os mais poderosos, dependiam do rei. Em nossos dias, segundo a concepção romana, o pagamento de uma terra dá pleno direito sobre ela.

Na Idade Média não era assim. No caso de má administração, o senhor incorria em penas que podiam chegar ao confisco de seus bens.

Assim, ninguém governa com autoridade completa e não escapa ao controle direto daquele de quem ele depende. Essa repartição da propriedade e da autoridade é um dos traços mais característicos da sociedade medieval.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 30 de maio de 2017

Testemunho concludente:
a dignidade do camponês na arte medieval

A dignidade dos camponeses se reflete em suas roupas e na distinção no trabalho.
A dignidade dos camponeses se reflete em suas roupas e na distinção no trabalho.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Valerão como um hino à glória do camponês as miniaturas das Très riches heures du Duc de Berry ou o Livre des prouffictz champestres, iluminado pelo bastardo Antoine de Bourgogne, ou ainda os pequenos quadros dos meses na fachada de Notre-Dame e em tantos outros edifícios.

Notemos que em todas estas obras de arte, executadas pela multidão ou pelo amador nobre, o camponês aparece na sua vida autêntica: removendo o solo, manejando a enxada, podando a vinha, matando o porco.

Haverá uma outra época, uma só, que possa apresentar da vida rural tantos quadros exatos, vivos, realistas?

Que individualmente determinados nobres ou determinados burgueses tenham manifestado desdém pelos camponeses, é possível e mesmo certo.

Mas isso não existiu em todas as épocas?

A mentalidade geral, contando com hábitos sarcásticos da época, tem muito nitidamente consciência da igualdade fundiária dos homens no meio das desigualdades de condição.

O jurista Philippe de Novare distingue três tipos de humanidade:

as “gentes francas”, isto é, “todos aqueles que tiverem franco coração; [...] e aquele que tiver coração franco, donde quer que tenha vindo, deve ser chamado franco e gentil, porque se é de um mau lugar e é bom, tanto mais honrado deve ser”.

Mercado de frutas e verduras. Afresco no Castello di Issogne, Val d'Aosta.
Mercado de frutas e verduras. Afresco no Castello di Issogne, Val d'Aosta.
A qualidade das roupas e da saúde dos camponeses rivaliza com as dos citadinos.
As “pessoas de ofício” e os “vilões”, isto é, aqueles que não prestam serviço senão constrangidos pela força, “todos aqueles que o fazem são justamente vilões, quer fossem servos ou jornaleiros. [...] Fidalguia e valor de antepassados não faz senão prejudicar um mau herdeiro desonrado”.

Poderíamos citar grande número dessas proclamações de igualdade.

Será possível dizer, de modo mais geral, que uma pessoa que ocupou um lugar de primeiro plano nas manifestações artísticas e literárias de uma nação tenha podido ser por ela desprezado?

Sobre este ponto, como sobre tantos outros, confundiram-se as épocas.

Aquilo que é verdade para a Idade Média não o é para tudo aquilo a que chamamos o Antigo Regime.

A partir do fim do século XV produz-se uma cisão entre os nobres, os letrados e o povo.

Futuramente as duas classes viverão uma vida paralela, mas penetrar-se-ão e compreender-se-ão cada vez menos.

Venda de secos e molhados, Castello di Issogne, Val d'Aosta. Proporcionalidade das diversos graus da ordem social.
Venda de secos e molhados, Castello di Issogne, Val d'Aosta.
Proporcionalidade das diversos graus da ordem social.
Como é natural, a alta sociedade drenará para si a vida intelectual e artística, e o camponês será banido da cultura como da atividade política do país.

Desaparece da pintura — salvo raras exceções, mas em todo caso da pintura em voga — da literatura, como das preocupações dos grandes.

O século XVIII já não conhecerá senão uma cópia completamente artificial da vida rural.

Que do século XVI até nossos dias o camponês tenha sido desprezado, pelo menos desdenhado e mal conhecido, não resta qualquer dúvida.

Mas também está fora de questão que na Idade Média ele teve um lugar de primeira ordem na vida do nosso país.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 18 de abril de 2017

Rotemburgo: bom gosto e dignidade na vida popular medieval


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





A sociedade da Idade Média dividia-se em três classes.

A mais alta das classes era o Clero, porque constituída por pessoas consagradas a Deus, integrantes da estrutura da Igreja Católica Apostólica Romana.

A segunda classe era a Nobreza — a classe dos guerreiros e dos proprietários de terras no interior.

Em caso de guerra, eram eles que iam para a frente de batalha. Serviço militar obrigatório era só para os nobres.

Para os plebeus, o serviço militar era muito restrito.

Por fim a Plebe — era a terceira classe, portanto —, à qual cabia a produção econômica.

Habitualmente, quando ouvimos falar em Idade Média, pensamos em catedrais suntuosíssimas, em castelos magníficos.

E com base na realidade, porque na Idade Média construíram-se catedrais e castelos incomparáveis.

Mas é natural a indagação: como seria então a vida da plebe — ou seja, do burguês e do trabalhador manual — nessa época?

Caminho de ronda nas muralhas que protegiam  a cidade burguesa
Caminho de ronda nas muralhas que protegiam  a cidade burguesa
A cidade cujas ilustrações vemos nestas fotos oferece-nos uma resposta palpável de como era essa vida.

Qual é a localidade?

É a cidadezinha construída naquele período histórico, denominada Rothenburg ob der Tauber.

Tauber é o nome de um riozinho que banha essa cidade. Em português: Rotemburgo sobre o Tauber.

A cidade era fortificada, porque poderia haver incursões de inimigos do Sacro Império Romano Alemão que quisessem tomá-la.

Para essa eventualidade, havia uma muralha que a cercava e a tornava absolutamente fortificada, como uma fortaleza.

Rothenburg ob der Tauber: vida burguesa em meio à poesia e à ordem
Rothenburg ob der Tauber: vida burguesa em meio à poesia e à ordem
Em seu interior, porém, encontramos o contrário.

Era uma cidade de trabalho, onde se vivia o dia-a-dia da pequena burguesia medieval ou do trabalhador manual.

Naturalmente, as construções mais bonitas eram as da pequena burguesia. Grande burguesia como que não havia lá. Era praticamente só a pequena.

As casas, em grande parte, comportavam a residência de mais de uma família. Eram prédios de apartamentos daquele tempo.

Havia uma entrada geral do edifício, o qual continha vários apartamentos.

Pode-se conjeturar que nos andares de cima ficavam os aposentos dos trabalhadores
manuais e nos dois andares de baixo residiam as pessoas mais abastadas.

Como não havia elevador naquele tempo, para morar lá no alto era necessário subir escadas a mais não poder.

O resultado era que o aluguel desses andares era mais barato.

Os prédios eram indiscutivelmente bonitos.

Não da beleza de um castelo, mas belos, dignos e inteiramente diferentes de uma favela ou das moradias de um bairro operário de qualquer cidade moderna.

Há uma ideia de solidez e aconchego nesses edifícios, que nos possibilita avaliar o prazer de estar em seu interior.

Tem-se a impressão de que lá come-se bem, dorme-se bem, e nos dias feriados descansa-se bem.

E na Idade Média o número de feriados era colossal.

As cores dos edifícios são discretas, embora não sejam tristes. São cores agradáveis.

Há uma preocupação de bom gosto e de arte em tudo, até nos pinheirinhos plantados diante das casas, que são encantadores.

Termino citando Karl Marx. Numa obra em que ele apresenta a história do operariado europeu, há uma frase que os comunistas atuais não gostam de repetir: "A idade de ouro do operariado europeu foi a Idade Média".






GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 4 de abril de 2017

A burguesia rica: cidadãos ilustres e banqueiros

Banquete, Musée du Petit-Palais, Paris. Ms. Histoire du Grand Alexandre
Banquete, Musée du Petit-Palais, Paris. Ms. Histoire du Grand Alexandre
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Na cena ao lado o ambiente é dos mais elevados.

Estamos na presença de um festim de gente rica e nobre.

Percebe-se a diferença.

A figura vestida de vermelho é o personagem de mais realce e está colocado num plano mais alto.

Ele está olhando para um outro que lhe está fazendo uma saudação pomposa.

Nas mesas do banquete há comerciantes ricos.

Na segunda imagem vemos uma reunião de banqueiros.

Um está ouvindo notícias de seus negócios; outro já fez o bom negócio e está guardando dentro da bolsa e anotando entradas e saídas.

Os bancos estavam naquele tempo apenas se organizando.

Outro banqueiro está contando dinheiro em cima da mesa e discute com o banqueiro de azul.

À direita um outro ainda vem fazer o pagamento.

O banqueiro está vestido com um tecido magnífico.

O banqueiro era sempre um plebeu; era um típico burguês, quer dizer habitante do burgo ou cidade.

Todos eles estão contentes.

O que está pagando eu não diria que está muito satisfeito, mesmo porque a função de pagar é menos alegre do que a de receber, mas positivamente não é nem um faminto nem um maltrapilho.


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 22/4/1973. Sem revisão do autor).


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS