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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Festas familiares, festins e jogos marcavam o dia a dia
A vida quotidiana medieval

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Todos os acontecimentos que atingem a família real, ou apenas a família senhorial do local — nascimentos, casamentos, etc. — são ocasião para distrações e festividades.

Também as feiras comportam a sua dose de diversões.

É nessas ocasiões que os jograis exibem os seus talentos, desde os que recitam fragmentos de canções de gesta ao som do alaúde ou da viola, até aos simples lutadores, que com as suas carantonhas, acrobacias e malabarismos atraem um círculo de pacóvios.

Por vezes, tais antepassados de Tabarin efetuam pantominas, mostram animais inteligentes ou fazem equilíbrio sobre uma corda esticada a alturas impressionantes.

Depois do espetáculo, seja de que gênero for, a distração preferida na Idade Média é a dança. Não há banquete que não seja seguido por um baile.

Danças dos donzéis nos castelos, carolas aldeãs, rondas em torno da árvore de maio. Nenhum passatempo é mais apreciado, sobretudo pela juventude, e os romances e poemas fazem-lhe frequentes alusões.

Aprecia-se a mistura de cantos e de danças, e certos refrães servem de pretexto para bailar e cantarolar, tal como as fogueiras de São João para saltar e fazer rondas.

Também as competições desportivas possuem os seus adeptos: lutas, corridas, saltos em altura e em comprimento, tiro ao arco, são objeto de concursos nas aldeias, entre os burgos e também entre os pajens e escudeiros que compõem a corte de um senhor.

A caça, ocasião de festins e de regozijo, permanece o desporto favorito. Bem entendido, justas e torneios são as principais atrações dos dias de festa ou de grandes recepções.

As crianças, como em todas as sociedades do mundo, imitam nos seus jogos os dos adultos, ou fazem intermináveis jogos de escondidas e de malha.

Os divertimentos de interior não faltam, sobretudo o xadrez.

Durante as cruzadas era jogado com fervor, tanto no exército cruzado como no sarraceno, e são numerosos sobre ele os tratados manuscritos existentes nas nossas bibliotecas.

É sabido que o Velho da Montanha, terrível senhor dos Assassinos, presenteou São Luís com um magnífico tabuleiro de marfim e ouro.

Menos sábios os jogos de mesas, como damas ou gamão, que tinham também os seus adeptos.

Eram sobretudo os dados que faziam furor. Vadios e jograis arruinavam-se com eles.

Rutebeuf fez mais de uma vez essa amarga experiência, e conta em termos patéticos as esperanças incessantemente iludidas e o despertar angustioso dos infelizes jogadores arruinados.

Joga-se com os dados também na casa real.

Jogando xadrez. Coleção Plimpton, Add MS 18.
Jogando xadrez. Coleção Plimpton, Add MS 18.
Como é frequente o uso de imprecações nesta espécie de jogos, as autoridades tomam medidas contra os blasfemos.

Em Marselha, aqueles que tinham esse mau hábito eram mergulhados por três vezes num fosso lodoso, próximo do Vieux-Port.

Puniam-se igualmente os que utilizavam dados viciados ou faziam batota de qualquer outro modo.

As crianças jogavam com os ossinhos.

Mais distintos e praticados na sociedade cortês eram os diversos jogos de espírito: adivinhas, anagramas, pedaços rimados.

Christine de Pisan deixou-nos Jogos para vender, pequenas peças improvisadas plenas de encanto e de poesia ligeira, no gênero de Vendo-vos o meu cestinho.




(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Lazeres e divertimentos impregnavam a vida quotidiana
Condições de trabalho dos medievais

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A organização dos lazeres é de base religiosa. Todo feriado é dia de festa, e toda festa começa pelas cerimônias do culto, frequentemente longas e sempre solenes.

Prolongam-se em espetáculos que, dados primitivamente na própria igreja, não tardaram a ser deslocados para o adro.

São as cenas da vida de Cristo, das quais a principal, a Paixão, suscita obras-primas redescobertas pela nossa época.

A Virgem e os santos inspiram também o teatro, e toda a gente conhece o Miracle de Théophile [Milagre de Teófilo], que teve uma voga extraordinária.

São espetáculos essencialmente populares, com o povo por atores e por auditório.

E o auditório é ativo, vibrando a um pequeno pormenor dessas cenas que evocam sentimentos e emoções de uma qualidade muito diferente das do teatro atual, uma vez que não apenas o intelecto ou a sentimentalidade entram em jogo, mas também crenças profundas, capazes de transportar esse mesmo povo até às costas da Ásia Menor, por apelo de um Papa.

Como sempre, é parte integrante a nota paródica, levada muito longe.

Palio de Siena
Palio de Siena
Vai-se ao ponto de subir ao púlpito para debitar gracejos apimentados, com ditos dos mais picantes por altura dos “sermões alegres”.

Nos nossos dias essas excentricidades fariam escândalo, mas os clérigos não veem mal nenhum, e galhardamente tomam parte nelas.

Não existe apenas o teatro propriamente religioso, e sobre as bancadas levantadas na praça representam-se frequentemente farsas e sotias, ou ainda peças de assuntos romanescos ou históricos.

Quase todas as cidades possuem a sua companhia teatral, dentre as quais ficou célebre a dos clérigos da Basoche, em Paris.

Os festejos públicos têm também o seu lugar ao lado das festas da Igreja.

São por vezes magníficos cortejos, que desfilam pelas ruas por ocasião das assembleias e cortes gerais convocadas pelos reis, e se realizam numa ou noutra das suas residências — em Paris, Orleans — fazendo lembrar os campos de março e campos de maio, para os quais Carlos Magno convocara a nobreza do país em Poissy ou Aix-la-Chapelle.

Nessas ocasiões a corte de França, tão simples em geral, compraz-se numa certa ostentação.

Palio de Siena
Palio de Siena
Para as entradas de reis ou de grandes vassalos nas cidades, estas são decoradas com todo o fausto imaginável: tapeçarias estendidas ao longo das paredes, casas ornadas de folhagens e de verdura, ruas juncadas de flores.

Assim acontece nomeadamente por ocasião da coroação de um rei.

As cidades por onde ele passa após as cerimônias de Reims apressam-se a prestar-lhe uma recepção solene, e essa recepção nada tem de rígido nem de pomposo.

É acompanhada de cortejos grotescos, nos quais saltimbancos e folgazões de profissão, misturados com o público, fazem mil números que pareceriam incompatíveis com a majestade real.

Só se decidiu suprimir essas festas e “palhaçadas do tempo de antanho” por ocasião da entrada de Henrique II em Paris.

Eram ocasião de munificências por vezes inauditas, como fontes jorrando vinho, sobretudo sob o reino dos Valois.

Preparavam-se para elas cozinhas ambulantes, sobre as quais as carnes se amontoavam em enormes espetos.

Foi na mesma época que se tomou gosto pelas mascaradas ou bailes de máscaras, um dos quais ficou tragicamente na memória sob o nome de Bal des ardents (Baile dos ardentes).

Palio de Siena
Palio de Siena
O jovem rei Carlos VI usava com mais quatro companheiros um disfarce de selvagem, feito de estopa besuntada com pez e coberto de penas.

Tendo o grupo se aproximado imprudentemente de uma tocha, o fogo ateou-se ao seu traje, e ele teria morrido se não fosse a presença de espírito da duquesa de Berry, que o envolveu nas pregas do seu manto, abafando assim as chamas.

O perigo do qual acabava de escapar não deixou de influir sobre o cérebro já fraco do infortunado monarca, e sobre a enfermidade que o iria atingir.




(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)





Vídeo: Um entretenimento medieval: os 'sbandieratori' de Volterra, Itália






Outro exemplo de entretenimento: Jogo de xadrez de Orvieto contra Marostica


Outro exemplo de entretenimento: Passeata histórica de Orvieto


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terça-feira, 23 de agosto de 2016

O número de horas era ditado pela natureza,
mas havia incontáveis dias de repouso
Condições de trabalho dos medievais

O ritmo do trabalho na Idade Média era ditado pelos ritmos da natureza.
O ritmo do trabalho na Idade Média era ditado pelos ritmos da natureza.
Luis Dufaur
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O ritmo da jornada de trabalho varia muito na Idade Média, segundo as estações.

É o sino da paróquia ou do mosteiro vizinho que chama o artesão à oficina e o camponês aos campos, e as horas das trindades mudam com a duração do dia solar.

Em princípio, as pessoas deitam-se e levantam-se ao mesmo tempo que o Sol.

No Inverno o trabalho começa por volta das oito ou nove horas, para terminar às cinco ou seis.

No verão a jornada começa a partir das cinco ou seis da manhã, para só terminar às sete ou oito da noite.

Com as duas interrupções para as refeições, delimitam-se jornadas de trabalho que variam de oito a nove horas no inverno, e no verão até doze ou treze, por vezes quinze horas.

É este ainda o regime habitual das famílias camponesas.

Mas isto não se verifica todos os dias.

Em primeiro lugar, pratica-se aquilo a que se chama a semana inglesa.

Todos os sábados, e nas vésperas dos feriados, o trabalho cessa à uma hora da tarde em certos ofícios; e para todas as pessoas nas vésperas, quer dizer, o mais tardar por volta das quatro horas.

Aplica-se o mesmo regime às festas que não são feriados, isto é, uma trintena de dias por ano, tais como o dia de Cinzas, das Implorações, dos Santos Inocentes, etc.

Repousa-se igualmente na festa do padroeiro da confraria e da paróquia, além de feriado completo no domingo e nos dias de festas obrigatórias.

As festas são muito numerosas na Idade Média: de trinta a trinta e três por ano, segundo as províncias.

Às quatro festas que conhecemos hoje em dia em França acrescentavam-se não só o dia de Finados, a Epifania, as segundas-feiras de Páscoa e de Pentecostes, e três dias na oitava do Natal.

Numerosas outras festas passam mais ou menos desapercebidas atualmente, tais como Purificação, Invenção e Exaltação da Santa Cruz, Anunciação, São João, São Martinho, São Nicolau, etc.

O calendário litúrgico regula assim todo o ano, introduzindo grande variedade, tanto mais que se dá a estas festas muito mais importância do que nos nossos dias.

É pelas datas das festas que se mede o tempo, e não pelos dias do mês. Fala-se do “Santo André”, e não de 30 de novembro, e diz-se três dias depois do São Marcos, de preferência a 28 de abril.

Em sua honra são igualmente preteridas exigências de ordem social, tais como as da justiça, por exemplo.

Os devedores insolúveis, aos quais é designada uma residência forçada — regime que faz lembrar a prisão por dívidas, embora sob uma forma mais doce — podem abandonar a prisão e ir e vir livremente da Quinta-feira Santa até a terça-feira de Páscoa, do sábado à terça-feira de Pentecostes, da véspera de Natal até a Circuncisão.

Estas são noções que nos é difícil hoje em dia compreender perfeitamente.

No total, havia cerca de noventa dias por ano de feriados completos, com setenta dias e mais de feriados parciais, ou seja, cerca de três meses de férias repartidas ao longo do ano, o que garantia uma variedade inesgotável na cadência do trabalho.

Em geral as pessoas queixavam-se mesmo, como o sapateiro de La Fontaine, de ter demasiados dias feriados.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Grandes invenções mudaram o trabalho e a produtividade
Condições de trabalho dos medievais

Mestre de obras instrui os pedreiros que estão com seus instrumentos
Mestre de obras instrui os pedreiros que estão com seus instrumentos
Luis Dufaur
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Os instrumentos de trabalho são sensivelmente os mesmos de que nos servimos até ao século XIX, antes do desenvolvimento do maquinismo e da motorização da agricultura.

É necessário contudo mencionar que o carro de mão, cuja invenção uma tradição bem estabelecida atribui a Pascal, já existia na Idade Média, em tudo semelhante àquele de que nos servimos atualmente.

É possível ver manuscritos do século XIV cujas iluminuras mostram trabalhadores transportando pedras ou tijolos em carros de mão, dos quais sustentam um dos braços por meio de uma corda passada sobre o ombro, para poderem transportar mais facilmente a carga. O processo ainda é usado pelos nossos operários.

Devem-se várias invenções à Idade Média, e a sua importância tornou-se demasiado grande com o andar dos tempos, não admitindo que sejam passadas em silêncio: a albarda (jugo) dos cavalos, por exemplo.

Até então a atrelagem concentrava todo o esforço sobre o peito do animal, de tal modo que uma carga um pouco mais importante produzia o risco de sufocação.

Foi no decurso do século X que apareceu a engenhosa ideia de atrelar os animais de carga de modo a que fosse o corpo inteiro a suportar o peso e esforço requeridos.

Esta inovação deveria introduzir uma profunda renovação dos costumes, pois a tração humana havia sido até então superior à animal (Cf. Lefèbvre des Noettes, L'attelage à travers les âges, Paris, 1931).

Ao inverter a ordem das coisas, tornava-se fácil e possível na prática a supressão da escravatura, necessidade econômica da Antiguidade.
A invenção do jugo simplificou o trabalho e multiplicou a produção
A invenção do jugo simplificou o trabalho e multiplicou a produção agrícola

A Igreja tinha lutado para que o escravo fosse considerado como um homem e para que os direitos da pessoa humana lhe fossem reconhecidos, e isso constituía já uma revolução social nos costumes.

Essa revolução foi definitiva a partir do dia em que cavalos e burros se encarregaram de uma parte do trabalho humano.

O mesmo se deu com a invenção do moinho hidráulico, depois o moinho de vento, que deveria proporcionar um passo considerável à humanidade, suprimindo a imagem clássica do escravo atrelado à mó.

De alcance menos profundo, mas de incontestável comodidade, o processo que permite a uma viatura girar facilmente sobre si própria, graças ao dispositivo que torna as duas rodas da frente independentes das rodas de trás, não deveria contribuir menos para o progresso e o conforto.

Basta pensar no espaço que devia ser necessário para virar os grandes carros carregados de cereais ou de forragem, e nos atropelos daí resultantes.

É mais que certo que estas invenções tiveram mais efeito do que outras sobre o bem-estar da arraia-miúda, contribuindo sem sobressaltos nem despesas para melhorar eficazmente a sua sorte.

A estas invenções, que deviam modificar radicalmente as condições do trabalho humano, é preciso acrescentar as da bússola e da barra do leme, não menos importantes na história do mundo.

Os progressos da navegação foram por elas decuplicados, o que em parte explica essa intensa circulação a que se assiste no século XIII.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


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