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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A construção civil se fazia com os materiais da região

Bruges, na Bélgica.
Bruges, na Bélgica.




Sabe-se na Idade Média que não existe conforto sem paredes espessas servindo de proteção.

Segundo os recursos do local, são construídas em tijolo ou em pedra talhada, no caso dos ricos.

Na maior parte dos casos, mistura-se madeira e adobe, como acontece um pouco por toda parte até aos nossos tempos.

Constrói-se no chão toda a armadura da fachada, em vigas sabiamente unidas umas às outras.

A seguir procede-se de uma só vez ao levantamento, com a ajuda de cabrestantes, macacos e polés, para depois se guarnecer os interstícios com tijolos ou com o material usado na região.

As igrejas que nos restam dão em geral a nota do aspecto das casas.

No Languedoc triunfa o tijolo rosa, que dá um brilho tão particular às igrejas de Toulouse ou de Albi.

Kayserberg, na Alsácia, França.
Kayserberg, na Alsácia, França.
Em Auvergne constrói-se em pedra, aquela sombria pedra de Volvic de que a catedral do Puy ou a de Clermont-Ferrand fornecem imponentes exemplos.

Nas regiões de terra argilosa, como no Midi provençal, casas e monumentos são cobertos de telhas, que tomaram ao sol essa cor de mel tão característica em aldeias como Riez ou Jouques.

Na Borgonha a telha é de preferência envernizada, rebrilhando os telhados em cores ofuscantes, como no hospício de Beaune e Saint-Bénigne de Dijon.

Na Touraine, no Anjou, utiliza-se a ardósia extraída na região.

E quando as igrejas não são abobadadas, apenas emadeiradas como acontece frequentemente no norte e em torno da bacia parisiense, é porque as florestas, mais numerosas do que as pedreiras, tornavam este modo de revestimento mais econômico.

Nessas regiões, as residências dos particulares eram quase sempre cobertas de colmo, mesmo na cidade, o que não deixava de aumentar os riscos de incêndio.


Leis municipais ditadas pelo costume e os usos locais

Beehive Cottage, em Lyndhurst. Grã-Bretanha. Exemplo de casa camponesa.
Beehive Cottage, em Lyndhurst. Grã-Bretanha. Exemplo de casa camponesa.
Um pouco em toda parte, as autoridades municipais prescreviam aos habitantes medidas de prudência para evitar os sinistros.

O toque de recolher não tinha outra razão de ser.

Em Marselha recomenda-se aos armadores, quando procedem à brusque (operação que consiste em aquecer a quilha do navio em construção, para o besuntar mais facilmente de pez), que vigiem a chama para esta não ultrapassar uma certa altura.

Dizem os estatutos da cidade: “Nem sempre está ao alcance do homem conter as chamas que ele próprio ateou”.

Após um incêndio que ocorreu em Limoges em 1244, destruindo vinte e duas casas, mandou-se construir vastos reservatórios de água, aonde os burgueses se vinham abastecer em caso de alerta.

Quando se declarava um incêndio, era dever de todos acorrer com um balde d’água ao toque a rebate.

Toda a gente devia colocar outro balde diante da porta de casa, por precaução.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)






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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A realeza era a grande protetora dos privilégios burgueses e camponeses





A realeza dá o exemplo desse movimento pela outorga de liberdades às comunas rurais.

A “Carta de Lorris”, concedida por Luís VI, suprime as “corvées”, a servidão; reduz as contribuições, simplifica o processo de justiça; e estipula além disso a proteção dos mercados e das feiras:

“Nenhum homem da paróquia de Lorris pagará quaisquer taxas ou direitos por aquilo que é necessário à sua subsistência, nem pelas colheitas feitas por trabalho seu ou de seus animais, nem pelo vinho que obteve de suas vinhas.

“A ninguém será exigida cavalgada ou expedição que não permita voltar no mesmo dia para casa, caso queira.

“Ninguém pagará pedágio para Étampes, Orléans, Milly, Gâtinais e Melun.

“O que tiver sua propriedade na paróquia de Lorris estará isento do seu confisco, se cometer alguma falta, a menos que seja contra Nós ou nossa gente.

“Ninguém que venha às feiras ou ao mercado de Lorris, ou que delas volte, poderá ser preso ou atormentado, a menos que tenha cometido alguma falta nesse dia.

“Ninguém, nem Nós nem outros, poderá impor a “talha” aos homens de Lorris.

“Nenhum dentre eles fará “corvée” para Nós, a não ser uma vez ao ano, e para levar nosso vinho a Orléans e não além.

“Todo aquele que permanecer um ano e um dia na paróquia de Lorris sem que ninguém proteste, e desde que não tenha sido proibido por Nós nem por nosso representante, daquele dia em diante será livre”.

A pequena vila de Beaumont recebe pouco depois os mesmos privilégios, e logo o movimento se delineia por todo o reino.

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Os ritmos da vida e horários
ditados pelos sinos religiosos e públicos

Relógio público na cidade de Rouen, França.
Relógio público na cidade de Rouen, França.



Nas ruidosas cidades medievais, onde fervilhava uma população incessantemente atarefada, a voz dos sinos contava as horas, e também isso fazia parte do “fundo sonoro”.

O ângelus — de manhã, ao meio-dia e à noite — marca as horas de trabalho e de repouso, desempenhando o papel das modernas sirenes de fábrica.

O sino anuncia os dias de festa, chama por socorro em caso de alarme, convoca o povo para a assembleia geral, ou os almotacés para o conselho restrito, toca a rebate de incêndio, dobre de finados, carrilhões de festas.

Pela sua voz, pode-se seguir a vida da cidade durante todo o dia, até soar à noite o recolher.

Na noite


Extinguem-se então as luzes das lojas, os clarões dos assadores; recolhem-se os telheiros, fecham-se os portões; quando se teme qualquer surpresa, fecha-se a cidade e as suas portas, levantam-se as pontes levadiças e baixam-se as grades.

Por vezes é suficiente colocar correntes atravessando as ruas, o que tem igualmente a vantagem, nos bairros mal afamados, de cortar a retirada aos malandros.


Clique para ouvir o carilhão das horas da catedral de Paris :


Só permanecem iluminados os pavios que dia e noite pestanejam diante das estatuetas da Virgem e dos santos abrigadas em nichos na esquina das casas, e diante dos Cristos no cruzamento das ruas.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Higiene e saúde nas ruas e nas casas,
mais que em séculos posteriores

Casas populares em Troyes, região da Champagne, França. A dignidade, a compostura e a salubridade de casas, ruas e logradouros foram muito prezadas na Idade Média.
Casas populares em Troyes, região da Champagne, França.
A dignidade, a compostura e a salubridade de casas, ruas e logradouros
foram muito prezadas na Idade Média.



Podemos perguntar, perante estes testemunhos inegáveis, o que é que terá sugerido a um Luchaire a estranha opinião segundo a qual as casas medievais não passavam de “pocilgas fedorentas, e as ruas eram cloacas” (apud La société française au temps de Philippe-Auguste, p. 6.).

É verdade que não cita monumento nem documento de espécie alguma em apoio à sua afirmação, e concebe-se dificilmente a razão pela qual, se tinham o hábito de viver em pocilgas, os nossos antepassados puseram tanto cuidado em orná-las de janelas com colunas dividindo-as ao meio, de arcaturas trabalhadas assentes em finas colunetas esculpidas, que reproduzem muitas vezes a ornamentação das capelas vizinhas.

Isso ainda se pode ver na Borgonha em Cluny, no Auvergne em Blesle, na Gasconha na pequena vila de Saint-Antonin, para citar apenas casas datadas da época romana, quer dizer, do século XI ou dos primeiros anos do século XII.

Quanto às ruas, longe de serem “cloacas”, são pavimentadas desde muito cedo, e Paris o foi desde os primeiros anos do reinado de Filipe Augusto.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A vida borbulhante e participativa nas ruas medievais

Na Idade Média toda a atividade acontecia na rua, à luz do dia. Todos podiam ver como o produto era fabricado, como o serviço era feito, e encomendar as coisas como cada um queria.
Na Idade Média toda a atividade acontecia na rua, à luz do dia.
Todos podiam ver como o produto era fabricado,
como o serviço era feito, e encomendar as coisas como cada um queria.



O ambiente da rua é muito importante para o homem da Idade Média, pois vive-se muito na rua, o que é mesmo uma verificação assaz curiosa de fazer.

Até então, e de acordo com o uso corrente na Antiguidade, as casas eram iluminadas por dentro, apresentando poucas ou nenhuma abertura para o exterior.

Na Idade Média elas abrem-se para a rua. Isso é o índice de uma autêntica revolução dos costumes, pois a rua torna-se um elemento da vida quotidiana, tal como o haviam sido, no passado, a ágora ou o gineceu.

As pessoas gostam de sair. Todos os lojistas têm um toldo que montam todas as manhãs, e expõem os seus artigos ao ar livre.

A iluminação foi, antes do século da eletricidade, uma das grandes dificuldades da existência, e a Idade Média, amante de luz, resolvia a questão tirando o maior proveito da luz do dia.

Um mercador de tecidos que arrastava os clientes até ao fundo da loja era mal considerado, pois se seus artigos não contivessem algum defeito, ele não teria receio de expô-los em plena rua, tal como o faziam todos os outros.

O que o cliente quer é poder acotovelar-se sob o toldo e examinar à vontade, em pleno dia, as peças entre as quais fará recair a sua escolha com os conselhos do seu alfaiate, que o mais das vezes o acompanha para isso.

O cordoeiro, o barbeiro, mesmo o tecelão, trabalham na rua ou virados para ela.

O cambista instala as suas mesas sobre cavaletes, no exterior, e tudo que a autoridade municipal pode fazer, para evitar estorvos, é limitar a uma escala fixa a dimensão dessas mesas.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A segurança nas ruas das cidades medievais

Rothenburg ob der Tauber, Alemanha
Rothenburg ob der Tauber, Alemanha



No princípio da Idade Média, procura-se acima de tudo a segurança.

Por isso a vida encontra-se totalmente concentrada no domínio, ou quase tanto, configurando um regime de autarquia feudal, ou antes familiar, durante o qual cada corte procura bastar-se a si própria.

Essa necessidade de se agrupar para efeitos de defesa determina a disposição das aldeias, que se encontram agarradas às encostas do domínio senhorial, onde os servos se refugiarão em caso de alerta.

As casas estão amontoadas umas às outras, utilizam a mínima polegada de terreno e não ultrapassam as escarpas da colina em que se ergue o torreão.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Formas de propriedade medieval: livres e variegadas,
diversamente da planificação moderna

Não é um conto de fadas! Nem é Disneyland!
O povo vive assim em Rothenburg ob der Tauber, Alemanha, desde a Idade Média.



Na divisão um tanto sumária que muitas vezes se fez da sociedade medieval, só há lugar para os senhores e para os servos: de um lado a tirania, o arbítrio e os abusos de poder; do outro os miseráveis, sujeitos aos impostos e aos dias de trabalho gratuito exigidos.

Tal é a ideia que evocam — e não apenas nos manuais de história para uso das escolas primárias — as palavras nobreza e terceiro estado.

O simples bom senso basta, no entanto, para dificilmente admitir que os descendentes dos terríveis gauleses, dos soldados romanos, dos guerreiros da Germânia e dos fogosos escandinavos se tenham reduzido, durante séculos, a uma vida de animais encurralados.

Mas há lendas tenazes. O desdém pelos “séculos obscuros” data, aliás, de antes de Boileau.

Na realidade, o terceiro estado comporta uma série de condições intermediárias entre a liberdade absoluta e a servidão.

Nada de mais diverso e mais desconcertante do que a sociedade medieval e as propriedades rurais da época.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Europa saiu do caos quando as famílias se apropriaram indissoluvelmente da terra

Casas camponesas em Veules-les-roses, Normandia
Os antepassados foram piratas, os filhos deitaram raízes da terra e forjaram uma civilização.



E foi assim que se formou a França, obra desses milhares de famílias obstinadamente fixadas ao solo, no tempo e no espaço.

Francos, borguinhões, normandos, visigodos, todos esses povos móveis, cuja massa instável faz da Alta Idade Média um caos tão desconcertante, formavam desde o século X uma nação solidamente ligada à sua terra, unida por laços mais seguros que todas as federações cuja existência se proclamou.

O esforço renovado dessas famílias microscópicas deu origem a uma vasta família, um macrocosmo, cuja brilhante administração a linhagem capetiana simboliza maravilhosamente, conduzindo durante três séculos de pai para filho, gloriosamente, os destinos da França.

É certamente um dos mais belos espetáculos que a história pode oferecer, essa família sucedendo-se em linha direta acima de nós, sem interrupção, sem desfalecimento, durante mais de trezentos anos — tempo equivalente ao que transcorreu desde o rei Henrique IV até a guerra de 1940.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A família nobre ou popular
era a verdadeira detentora da propriedade

A herança familiar de pai para filho garantiu a estabilidade e a prosperidade das famílias
em todas as classes sociais. Na foto cottage (casa camponesa) em Spring-Garden, Inglaterra.



Não deixar o patrimônio enfraquecer, tal é realmente o fim a que visam todos os costumes medievais.

Por isso havia sempre um único herdeiro, pelo menos para os feudos nobres. Temia-se a fragmentação que empobrece a terra, dividindo-a ao infinito.

O parcelamento foi sempre fonte de discussões e de processos, além de prejudicar o cultivador e dificultar o progresso material, pois é necessário um empreendimento de certa importância para poder aproveitar os melhoramentos que a ciência ou o trabalho põem ao alcance do camponês, ou para poder suportar eventuais fracassos parciais, e em qualquer caso fornecer recursos variados.

O grande domínio, tal como existe no regime feudal, permite uma sábia exploração da terra. Pode-se deixar periodicamente uma parte em repouso, dando-lhe tempo para se renovar, e também variar as culturas, mantendo de cada uma delas uma harmoniosa proporção.

A vida rural foi extraordinariamente ativa durante a Idade Média, e grande quantidade de culturas foi introduzida na França durante essa época.

Isso foi devido, em grande parte, às facilidades que o sistema rural da época oferecia ao espírito de iniciativa da nossa raça.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A transmissão da propriedade privada:
alicerce da unidade e continuidade familiar

O respeito religioso da propriedade e da herança familiar, que não podia ser prejudicado pela autoridade pública foi fator de prosperidade tranquila e continuada. Na foto: casas populares na aldeia de Gueberschwihr, Alsácia, França.
O respeito religioso da propriedade e da herança familiar,
que não podia ser prejudicado pela autoridade pública
foi fator de prosperidade tranquila e continuada.
Na foto: casas populares na aldeia de Gueberschwihr, Alsácia, França.



Na Idade Média, a herança familiar, quer se trate de um arrendamento servil ou de um domínio senhorial, permanece sempre propriedade da linhagem.

É impenhorável e inalienável, os reveses acidentais da família não podem atingi-la. Ninguém pode tomá-la, e a família também não tem o direito de a vender ou negociar.

Quando o pai morre, a herança de família passa para os herdeiros diretos.

Tratando-se de um feudo nobre, o filho mais velho recebe quase a sua totalidade, porque a manutenção e defesa de um domínio requer um homem, e que seja amadurecido pela experiência.

Esta a razão do morgadio, que a maior parte dos costumes consagra.

Para os arrendamentos, o uso varia com as províncias, sendo por vezes a herança partilhada, mas em geral é o filho mais velho quem sucede.

Notemos que se trata aqui da herança principal, do patrimônio de família.

Em tal circunstância as outras são partilhadas pelos filhos mais novos, mas é ao mais velho que cabe o “solar principal”, com uma extensão de terra suficiente para ele viver com a sua família.

É justo, pois afinal o filho mais velho quase sempre secundou o pai, e depois dele é quem mais cooperou na manutenção e na defesa do patrimônio.

Em algumas províncias, tais como Hainaut, Artois, Picardie e em algumas partes da Bretanha, não é o mais velho, e sim o mais novo o sucessor da herança principal.

Uma vez mais, isso ocorre por uma razão de direito natural, porque numa família os mais velhos são os primeiros a casar, estabelecendo-se então por conta própria, enquanto o mais novo fica mais tempo com os pais e cuida deles na velhice.